Por trás do prazer de colecionar figurinhas​

Por trás do prazer de colecionar figurinhas

Colecionar os cromos, como os da Copa do Mundo, mostra como lidamos com desejo, frustração e a busca por completude.

Na escola, na rua, do lado da banca de jornal ou até no estádio do Pacaembu (agora “Mercado Livre Arena Pacaembu”), em época de Copa do Mundo metade da minha vida se tornava a seleção brasileira e a outra metade o meu álbum de figurinhas.

A sensação de abrir um pacotinho e encontrar um tesouro, ou conquistar o jogador que você mais queria “batendo bafo” com seus amigos, representa um pouco do porquê de muitas pessoas nas últimas gerações brasileiras terem compartilhado essas memórias.

O prazer de colecionar
Parte da força dos álbuns de figurinhas está na maneira como eles organizam a experiência. Existe um começo claro, um objetivo definido e um percurso que depende tanto de insistência quanto de sorte. Em um cotidiano frequentemente fragmentado, essa lógica simples tem um efeito quase imediato.

A psicóloga Lívia Barreto Silva explica que o colecionismo se sustenta por um mecanismo consistente de recompensa. “A cada nova figurinha adquirida ou troca realizada, a pessoa experimenta pequenas recompensas emocionais, o que aumenta a probabilidade de continuar engajada no comportamento. Além disso, o colecionismo costuma se associar a pensamentos e significados pessoais, como ‘isso me conecta com momentos bons’ ou ‘isso é parte de quem eu sou’, o que fortalece o vínculo com a atividade.”

Esse ciclo não depende apenas do resultado final. Pelo contrário, ele se alimenta do processo. “O prazer pode ser entendido como resultado de um sistema de recompensas intermitentes, um dos mais potentes para manutenção de comportamento. Nem toda figurinha é rara, mas ocasionalmente surge uma difícil, e isso mantém a motivação elevada”, afirma Lívia. Há uma expectativa constante, um “quase conseguir” que sustenta o interesse e mantém o envolvimento.

Ao mesmo tempo, existe um componente concreto: o avanço visível. Página por página, o álbum deixa de ser um conjunto de espaços vazios e passa a formar algo completo. “Há também um componente cognitivo importante, que é a percepção de avanço em direção a um objetivo concreto. Completar páginas ativa um senso de eficácia”, diz a psicóloga.

O neuropsicólogo e psicanalista Jorge Guedes complementa essa leitura ao olhar para o funcionamento do cérebro e suas camadas simbólicas. “O colecionismo mobiliza tanto circuitos neurológicos ligados à recompensa quanto dimensões simbólicas profundas do psiquismo. Do ponto de vista neuropsicológico, cada nova aquisição ativa o sistema dopaminérgico, associado à motivação e ao prazer.”

Mas não se trata apenas de química cerebral. “Na perspectiva psicanalítica, colecionar pode representar uma tentativa de organizar o mundo interno, dar sentido ao tempo e construir continuidade psíquica”, explica. Mesmo objetos simples passam a carregar um valor afetivo que vai além do que eles representam.

Entre memórias e vínculos
Se o processo de colecionar já é envolvente por si só, ele ganha outra camada quando atravessado pela memória.

“Na TCC, a nostalgia pode ser compreendida como um conjunto de memórias associadas a crenças e estados emocionais mais leves e seguros”, afirma Lívia. “Quando o adulto retoma o hábito de colecionar, ele reativa essas redes cognitivas, com pensamentos como ‘esse é um momento simples’ ou ‘isso me faz bem’, o que tende a gerar respostas emocionais de conforto e redução de estresse.”

Essa sensação não está só no objeto, mas no contexto que ele carrega. As trocas com amigos, a ansiedade antes de abrir um pacote, a busca coletiva pela figurinha difícil. O álbum, nesse sentido, funciona como um ponto de acesso a experiências que foram vividas em conjunto.

Jorge destaca que esse movimento tem um papel importante na regulação emocional. “A nostalgia atua como um potente modulador emocional. Reengajar-se com atividades da infância permite acessar memórias afetivas associadas a segurança, prazer e pertencimento. Para o adulto, isso pode funcionar como uma pausa das demandas contemporâneas e uma reconexão com versões mais espontâneas de si mesmo.”

Há também uma dimensão social que permanece central. Colecionar figurinhas nunca foi uma atividade totalmente solitária. Exige troca, negociação, presença. Mesmo quando o objetivo é individual (completar o álbum), o caminho passa pelo outro.

Esse aspecto coletivo ajuda a explicar por que a experiência é tão marcante. Não se trata apenas de adquirir figurinhas, mas de participar de uma dinâmica compartilhada, entre amigos, família e até desconhecidos, possibilitando a criação de vínculos e memórias afetivas.

Fechamento do ciclo
No fim, o momento de completar um álbum concentra tudo o que veio antes. Não apenas o resultado, mas o percurso inteiro: todos os pacotes, trocas, figurinhas brilhantes, e até as coladas um pouco tortas.

“Completar um álbum representa o fechamento de um ciclo comportamental orientado a metas”, explica Lívia. “Ao longo do processo, a pessoa investe esforço, lida com frustração e mantém persistência. Quando atinge o objetivo, há uma ativação clara de pensamentos de competência e realização, como ‘eu consegui’ e ‘valeu a pena’, que geram emoções como orgulho e satisfação.”

Esse fechamento não é apenas prático, mas simbólico. Para Jorge, ele toca em algo mais profundo. “Existe um componente de completude: finalizar um álbum ativa uma sensação de fechamento simbólico, que pode remeter inconscientemente a experiências de organização interna e domínio sobre algo.”

Ele amplia: “Completar um álbum pode evocar satisfação, orgulho, alívio e até uma sensação de identidade consolidada. Em um nível mais profundo, pode representar a ideia de ‘inteireza’, algo que começa fragmentado e se torna completo.”

Nesse contexto, entre uma figurinha e outra, o que se constrói não é apenas uma coleção, mas uma forma de lidar com o desejo, com a espera e com a própria ideia de falta.

fonte: https://vidasimples.co/cultura/por-tras-do-prazer-de-colecionar-figurinhas/

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drjorgeguedes

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Com 39 anos de experiência entre o Brasil e a Europa, o Dr. Jorge Guedes une psicanálise e neurociência para ajudar você a compreender suas emoções e transformar a sua história. Agende uma consulta